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APOLLO 11 – 50 ANOS E O PROF. JOÃO ALEXANDRE BARBOSA – USP

By 21/10/2019 No Comments

APOLLO 11 – 50 ANOS

E O PROF. JOÃO ALEXANDRE BARBOSA – USP

Prof.João Alexandre

Um Fato Antológico

“Eu venci a Apollo 11!”

(Prof. João Alexandre).

Nunca pensei que alguém pudesse, em sala de aula,

despertar mais interesse do que a Apolo 11. E aconteceu! Em termos!

Canto aqueles que, “por suas obras valorosas se vão da lei da morte libertando.”

Canto I – Camões

 

O caso que passo a narrar talvez não tenha similar no Brasil, levando em conta o contexto e as circunstâncias, a força da publicidade, e seu impacto no momento.

Recordar é viver!

Nestes dias, o mundo lembra e celebra 50 anos do lançamento da Apollo 11, tripulado, à lua, um feito considerado um triunfo e um marco da humanidade. Não podia deixar passar esta comemoração festiva mundial, sem lembrar outro fato extraordinário, paralelo, ocorrido na FFLCH, da USP, no dia e hora do lançamento da Apollo 11, (16/07/1969) e relacionado com o belo fato que passo a narrar:

Eu estava na FFLCH-USP, coordenando uma bateria de cursos de extensão, oferecidos a professores do Brasil.

Sr. Antônio Candido

Era a primeira vez que a USP oferecia cursos, em seu campus, para a comunidade externa, com tão alto sucesso, segundo testemunho público do nosso grande professor, Antônio Cândido. Estes cursos também foram um marco na USP!

Entre os professores do curso, em pauta, estavam os Profs. Antônio Cândido, João Alexandre Barbosa e outros.

O fato, que vou contar,  muito honra as pessoas envolvidas e a própria Universidade. Honra a FFLCH/ USP. Penso que está sendo narrado, pela primeira vez!

 

 

 

Cidade Universitária – USP

Aqui o prof. João Alexandre fica posto, lado a lado, com o Apollo 11, para sempre. Duplo sucesso!

No dia do lançamento do Apollo 11, o mundo inteiro estava em alvoroço, pela propaganda cerrada, feita pelas mídias sociais. Eram tempos de Guerra Fria!

Na hora do lançamento, o Brasil e o mundo inteiro, pararam para testemunhar o memorável feito dos E.U.A, do Ocidente: A chegada do homem à lua.

Nesse dia, dava aula o Prof. João Alexandre Barbosa, numa classe com mais de 150 alunos, que ocupavam todos os assentos da sala, tipo auditório, com muita gente sentada, nos degraus dos corredores e no chão, à frente da mesa do professor.

A sala estava apinhada de alunos!

Na véspera, os alunos pediram que fosse colocada, na sala de aula, uma televisão, para ligar, na hora do evento (lançamento da Apollo 11) e desligar ao final do acontecimento, para que os alunos-professores não perdessem a aula, que ninguém admitia perder. E também não perdessem o fato histórico!

Cinco minutos, antes da hora marcada, para o lançamento da Apollo 11, enquanto o Prof. João Alexandre interpretava o poema “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Mello Neto, a equipe de alunos responsável, atendendo ao combinado, no dia anterior, ligou a televisão, ainda sem som.

Numa reação inesperada e espontânea, os alunos atentos à aula, gritaram “não atrapalha, desliga a TV.”…

Como organizador e coordenador do curso, eu dirigi-me à classe, lembrando que estávamos apenas atendendo ao combinado, no dia anterior. No entanto, se fosse esse o desejo da classe, suspenderíamos a assistência ao fato histórico, e o Professor daria prosseguimento regular à sua aula.

Para evitar descontentamentos posteriores, fiz consulta democrática, dizendo:

“Para que se atenda à maioria, vamos votar a decisão: Quem quiser que se suspenda a transmissão levante o braço; quem quiser assistir à transmissão fique como está”.

A maioria absoluta da classe levantou o braço!

O Professor ganhou e a Apollo 11 perdeu!? Perdeu neste contexto, mas ganhou, em todo o Ocidente!

Desligamos a TV e a aula continuou, como se nada estivesse acontecendo, no mundo.  Participar da aula era o mais importante, naquele momento. Ensinava a pensar! Bela lição de civismo! Cada coisa nos seu lugar!

Ao final da aula, o Prof. João Alexandre veio se dirigir a mim.

Com o braço no meu ombro, sorridente e em tom de brincadeira e sem vaidade, fez uma afirmação que nunca mais esqueci:

“Nunca pensei que a minha aula pudesse ser, para os alunos, mais importante do que o lançamento da Apollo 11. Enfim, eu venci a Apollo 11”.

 Foto Google – Apollo 11

“Penso que vencemos juntos, disse eu, brincando, também!

“Pois é, vencemos juntos!” disse o Professor… Foi uma simples pilhéria mas teve um quê de verdade! Sem que esta significasse qualquer demérito para o Apollo 11.

Narro este fato para lembrar o quanto é bom e nos faz bem uma boa aula, de um bom professor, que nos motiva e enriquece a mente.

Depois da aula pudemos nos informar do lançamento da Apollo 11 e nos informamos nos noticiários. Ganhamos na aula e no sucesso da Apollo 11!

Da Apollo 11, o astronauta Armstrong declarou:

“Este é um pequeno passo para o homem. Um grande salto para a humanidade”.

Este foi um pequeno passo para a civilização!

A aula, para a classe, era um passo maior do que a do Apollo 11,  naquele momento.

Certas aulas são momento essenciais que marcou toda a vida das pessoas!

O bom professor é essencial ao desenvolvimento humano!

O bom professor ensina as pessoas a pensar, a viver, a conviver e a compartilhar!

Nota:

Sempre pensei em publicar este acontecimento, durante a vida do Prof. João Alexandre. Este é um fato antológico, que vale mais do que uma comenda!

Ele teria rememorado o fato, com orgulho e satisfação, como eu o sinto agora!

Este é um fato inesquecível! Recordar é reviver!

Nunca é tarde para rememorar os bons acontecimentos, os bons momentos que ficam!                     Fazem-nos bem a alma e ao coração!

Parafraseando Fernando Pessoa: “ Fui feliz, na ocasião?!” Não sei! “Fui-o outrora agora!”

Pausa para pensar…

Os amigos também certamente se alegram, com este fato real e autêntico!|

Estes são momentos antológicos na nossa vida; da vida na universidade!

Recordar é viver!

Alguns dos que estavam nessa aula, se puderem ler este texto, se sentirão bem consigo mesmos e se alegrarão, por terem sido protagonistas de tão nobre acontecimento!

Saber dar valor a uma boa aula faz-nos muito bem.

Este fato, aqui narrado, foi um momento inesquecível, para todos os envolvidos.

Mérito do Prof. Dr. João Alexandre e dos alunos e professores presentes.

Cumprimentos à família do saudoso professor.

Enfim, o Prof. João Alexandre Barbosa foi protagonista, não intencional, de uma atitude que pode ser uma das marcas de sua vida acadêmica, plena de realizações.

Seu operoso trabalho deixou gratas lembranças, que o tempo não apaga.

Texto : Profº Dr. José Jorge Peralta (Prof. da FFLCH-USP)

Fotos: Google: João Alexandre Barbosa, Antônio Cândido de Melo e Souza, Paisagem Cidade Universitária,  Apollo 11, João Cabral de Melo Neto

 

Leia, o Poema citado

Tecendo a Manhã

João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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