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FILOSOFIA DA ARTE XÁVEGA Ou a Arte da Vida e da Convivência

By 06/04/2020 No Comments
FILOSOFIA DA ARTE XÁVEGA
Ou a Arte da Vida e da Convivência
J. Jorge Peralta
1. Dialética do Cotidiano
Dialogar é um processo de interação que inclui: ceder, reconsiderar e prosseguir, após o ver, ouvir, pensar e decidir..

Fotografia de Pintura de Flameiro 96

Viver supõe a arte da tentativa reiterada para superar obstáculos. Viver é a arte de vencer dificuldades e de aceitar a pluralidade.

A vida das pessoas e das sociedades não segue uma linha reta.
Os obstáculos fazem parte de todos os empreendimentos. Por isso avançamos em zigue-zague ou em curvilíneas, para não perdermos o rumo.
 Precisamos saber superar os ventos contrários. Precisamos saber que agir é arriscar. O caminho está apenas esboçado e é sempre inédito. É preciso ousar.
Para avançarmos seguros, podemos ser obrigados a recuar, se necessário, para retomar, depois o rumo traçado.
Recuar, quando necessário, pode ser uma atitude vital. É melhor recuar do que naufragar. O que não podemos  é perder o rumo. Quem sabe o que quer toma decisões adequadas e certeiras.
Resistir às forças opostas é necessário, mas resistir pode incluir contornar. É questão estratégica.
Não podemos reagir como os irracionais e teimosos carneiros de conhecida alegoria, que se encontram no meio da pinguela, atravessando o rio. Nenhum quis recuar. O resultado foi trágico, como é sabido.
2. Arte Xávega, Uma Lição Milenar
Estas ideias vieram à minha mente ao observar a pesca marítima artesanal, na praia da Vagueira. Chamada de Arte Xávega.
Esta é uma forma de pesca multimilenar. É praticada em muitas praias da costa do Mar Português, voltada principalmente para a pesca da sardinha que por ali passa em grandes cardumes.
Sai de manhãzinha o barco, com as redes. Já para se lançar ao mar, o barco enfrenta a resistência das ondas bravias. Não é fácil vencer a resistência das ondas, do mar bravio  que batem na praia, persistentes e contínuas.

Rolando sobre toras, os barcos dirigem-se ao mar, altivos, descendo pela areia grossa. A tração é feita pela força de possantes bois e homens musculosos e muito atentos.

Antes da corrida disparada rumo às águas  turbulentas, os pescadores aguardam o momento adequado no intervalo entre as ondas que vêm e vão, num processo de vai-e-vem quase eterno. As ondas são formadas em alto mar, além do horizonte, no Oceano Atlântico. Vêm num processo contínuo, formado há milhões de anos.
A Costa Portuguesa, tão bela e tão rica, é a última margem de terra, no extremo Oeste da Europa, também chamada Finis Terrae:  O Fim da Terra.
Este é o país “onde  a terra se acaba e o mar começa” (C.III, 20).
A Costa Portuguesa suporta todos os embates do Atlântico, que, vindo de grandes distâncias, às vezes tumultuadas, encontram nestas areias e nos rochedos de Portugal um leito seguro para se reclinarem e se apaziguarem.
É essa fúria do Oceano, que vem medir forças com as nossas praias, que os nossos bravos marinheiros precisam saber driblar, para lançar ao mar os seus barcos de pesca.
Driblar, sim, pois a força do mar ninguém vence. Apenas precisa saber como aproveitar o  momento certo para com

ele conviver e sobreviver, nessa peleja permanente e arriscada.

Na pesca, como na vida, a pessoa não pode deixar se intimidar, para não perder a auto-confiança.
Acertado o momento estratégico, lá vão os nossos pescadores. Vão lançar as redes em alto mar. Na volta, trazem para a praia, uma das pontas da corda que servirá para arrastar a rede mais tarde. A outra ponta já ficara presa à saída.
3. Saber ceder, para a Corda não rebentar
Pelo meio da tarde começa a segunda tarefa: puxar as redes, talvez carregadas de peixe, para a praia.
Até uns cincoenta anos atrás, as redes eram puxadas por juntas de bois; muitas juntas.
Eu gostava de observar a dinâmica do processo:
No alto mar, as ondas, no seu vai-vem, tanto empurram as redes para a praia, como as empurram de volta para o alto mar.
Quando o mar estava a favor, impelindo as redes para a praia, os bois devolviam alguma velocidade. Quando a energia do mar invertia seu furor, os bois, por vezes, recuavam, pela força adversa, e assim, impediam, nesse movimento natural que as redes se rompessem ou as cordas rebentassem, e tudo se perdesse.
Este investir persistente seguido de forçado recuo, dominando o furor bovino, permitia que as redes chegassem à praia, abarrotadas de peixe, para alimentar o povo.
Espetáculo belo de se ver. Enche os olhos aquele monturo de peixes pulando, tentando voltar ao mar, dando o último esforço para resistir pela vida, que sentem se perder, para alimentar muita gente.
No ar, um imenso bando de gaivotas mergulham nas ondas para pegar os peixes que da rede escaparam.
Esta é a Arte Xávega que todos podemos testemunhar ainda hoje.
Uma grande lição de vida, uma filosofia do saber viver e conviver.
4. Arte Xávega na Vida Cotidiana
Como na Arte Xávega, na vida precisamos saber arremeter e ceder em horas certas e oportunas. Sempre teremos barreiras a enfrentar. Precisamos saber a hora estratégica, em que vale a pena arremeter, de olhos bem abertos e atentos.
Precisamos saber que a teimosia pode pôr tudo a perder, se não soubermos ceder para podermos depois prosseguir.
O sucesso vem da arte de domar o vai-e-vem sempre persistente. Se forçarmos além da linha do possível, podemos perder nosso objetivo. Precisamos então saber recuar, oportunamente. Recuar e avançar, com sabedoria. Se sabemos o que queremos,  saberemos como chegar.
Nem sempre a linha reta é o caminho melhor e mais adequado. Às vezes o mais adequado é tentar em zigue-zague.
Outro exemplo dinâmico do processo em zigue-zague, ou para trás e para diante, é o jogo de futebol. Para vencer a marcação cerrada do adversário, que faz barreira, o jogador o dispersa, jogando em zigue-zague, com seus companheiros, inclusive recuando o jogo, para, na hora adequada, arremeter com mais força, no campo adversário, e, quem sabe, abrir chance de chutar a gol, balançar as redes e levantar o povo nas arquibancadas.
Ceder pode ser a oportunidade de agregar mais força para arremeter.
Na convivência e na interação humana, temos muito a aprender da Arte Xávega.
5. Arte Xávega é Sabedoria
A “Arte Xávega” é a arte do sucesso. Opõe-se à teimosia de quem pensa que só para a frente é que se anda. Um recuo estratégico pode mudar os rumos da vida e da história. Enquanto recuamos, tudo se rearticula.
Viver é manter  um diálogo permanente com o mundo que nos cerca.
Recuar pode ser a salvação de um grande projeto. Recuar apara arremeter. Recuar, às vezes, pode fazer parte das circunstâncias da condição humana. Recuar como estratégia e não por timidez.
Queiremos ou não, a vida é cheia de obstáculos, que precisamos saber superar com sabedoria, competência, persistência e galhardia.
Agora já podemos inventar a teoria da Arte Xávega.
A Arte Xávega nos ensina que na vida, cada viagem é uma viagem e que cada viagem tem suas próprias surpresas. Na Arte Xávega não há monotonia, nem mordomia.
A lei, na Arte Xávega, é a antiga senha dos cavalheiros: “Um por todos e todos por um”.
Nota: oportunamente postarei, aqui, um ensaio sobre a “Arte Xávega, Passo a Passo”. Aguarde.
Por enquanto sugiro que veja dois vídeos publicados no You tube.

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